O Saneamento que Polui: A Contradição da CESAN na Serra
Por Maykon Melo
Em tempos em que se discute tanto sustentabilidade, preservação ambiental e desenvolvimento sustentável, a cidade da Serra convive com uma realidade que contrasta com os discursos e as promessas amplamente divulgadas pela Companhia Espírito-Santense de Saneamento – CESAN, e sua concessionária privada, a Ambiental Serra.
Desde a assinatura da Parceria Público-Privada (PPP) firmada em 2015, a promessa era clara:
universalizar o esgotamento sanitário no município, garantir eficiência no tratamento e proteger os recursos naturais.
Contudo, passados quase dez anos, o que se observa é uma série de problemas operacionais, denúncias, autuações e, principalmente, a degradação contínua das lagoas, córregos e afluentes que cortam nosso município.
Diversos relatórios técnicos, incluindo pareceres do próprio Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES), revelaram que muitas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) da Serra operam de forma precária, sem cumprir os parâmetros exigidos pelas normas ambientais.
Não é raro encontrar corpos hídricos recebendo despejos com carga poluidora acima dos limites permitidos.
A CESAN e a concessionária já foram, inclusive, multadas por práticas que configuram crime ambiental.
O mais alarmante é que, enquanto os indicadores de coleta de esgoto são amplamente divulgados, a eficiência no tratamento desse esgoto parece não receber a mesma atenção.
E aqui cabe uma reflexão importante:
coletar esgoto sem tratar adequadamente é, na prática, transferir o problema do quintal da população para os nossos recursos naturais.
Basta visitar as lagoas da Serra – Jacuném, Juara, Maringá – ou acompanhar o estado dos córregos e rios que cortam nossos bairros para perceber os impactos:
maus odores, mortandade de peixes, perda da biodiversidade, avanço de doenças de veiculação hídrica e prejuízos irreparáveis à qualidade de vida das comunidades que vivem próximas a essas áreas.
E a responsabilidade não é apenas técnica. É também ética e social.
Fala-se muito em metas, em números, em cumprimento de contratos.
Mas onde ficam o compromisso com a saúde pública, com o meio ambiente e com as gerações futuras?
O que se vê é um modelo que prioriza o atendimento às planilhas, mas que falha em entregar dignidade ambiental.
Uma empresa pública, financiada pelo dinheiro da população, não pode agir como se o impacto ambiental fosse um dano colateral aceitável.
É inadmissível que, em pleno século XXI, sigamos naturalizando que o desenvolvimento urbano aconteça às custas da destruição dos nossos bens naturais mais preciosos.
Portanto, é urgente que a CESAN, o Governo do Estado, a Prefeitura da Serra e os órgãos de controle adotem medidas efetivas, não apenas no campo da fiscalização, mas também na responsabilização e na exigência de investimentos concretos para sanar essas falhas.
É preciso, sobretudo, respeitar quem mora na Serra, quem vive da pesca, quem cuida da terra, quem depende dos recursos naturais que estão sendo, dia após dia, degradados.
Saneamento não é só coleta.
É, acima de tudo, tratamento, preservação e respeito ao meio ambiente e à vida.
A Serra não pode mais pagar essa conta sozinha.
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